terça-feira, 22 de setembro de 2009

Tudo no mundo começou

(...) com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o que, mas sei que o universo jamais começou. Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através de muito trabalho. Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever. Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer? Se antes da pré-pré-história já havia os monstros apocalípticos? Se esta história não existe, passará a existir. Pensar é um ato. Sentir é um fato. Os dois juntos - sou eu que escrevo o que estou escrevendo. Deus é o mundo. A verdade é sempre um contato interior e inexplicável. A minha vida a mais verdadeira é irreconhecível, extremamente interior e não tem uma só palavra que a signifique. Meu coração se esvaziou de todo desejo e reduz-se ao próprio último ou primeiro pulsar. A dor de dentes que perpassa esta história deu uma fisgada funda em plena boca nossa. Então eu canto alto agudo uma melodia sincopada e estridente - é a minha própria dor, eu que carrego o mundo e há falta de felicidade. Felicidade? Nunca vi palavra mais doida, inventada pelas nordestinas que andam por aí aos montes. (...) Trecho de A Hora da Estrela – C. Lispector.

Passei a noite relendo A hora da estrela, de Clarice Lispector. Já li esse livro tantas vezes que perdi as contas. Realmente é surpreendente, fascinante e uma leitura obrigatória para todos os amantes da nossa literatura.

Sabe quando dizem que uma estrela ‘apaga’ e depois de anos-luz, nós, aqui na Terra, vemos o brilho dela? O que nós estamos vendo, se pensarmos um pouco além, é absolutamente nada. Seria nada mais nada menos que o brilho de algo que deixou de existir. A hora da estrela simboliza isso. O momento de enxergar a inexistência ativa. O momento de parar para notar a existência de algo/alguém que não está mais entre nós. A hora da estrela é a hora da nossa morte, pois, nesse momento, o ser humano deixa de ser invisível às pessoas, que percebem que ele existe apenas quando já não existe mais.

O livro inteiro é sobre literatura e sobre quem determina os fatos. Assim como na vida, quem determina o que ocorre conosco? Está aí um grande questionamento sem explicação alguma. Rodrigo S.M. (narrador) é apenas um fantoche nas mãos de Clarice. Ele é real. Assim como vida é real, as lutas são reais e as derrotas são quase sempre constantes. Vale muito à pena lê-lo.

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